quinta-feira, 25 de julho de 2013

Nosso Entrevistado, Rodrigo Faour!

Rodrigo Faour ladeado por seu imensurável acervo.
Foto de Renato Aguiar

Por Helena Vitória

Será mesmo verdade que a música jamais alcança a profundidade de uma obra escrita? Pode esse julgamento ser feito com base apenas na leitura “fria” de uma letra musical? Para o pesquisador, colecionador, escritor, jornalista, produtor musical e irreverente artista inato da comunicação, Rodrigo Faour, a capacidade da música de suscitar profundas reflexões no público não pode ser medida pela superficialidade do discurso. Nesse gênero ― mais do que as palavras ―, as luzes, as imagens e a interpretação dos compositores e artistas falam direto às emoções e definem o potencial dramático de suas obras quer faladas, ouvidas, escritas ou até mesmo lidas.

O carioca Rodrigo Faour possui um arquivo pessoal com cerca de 80 mil músicas catalogadas e um vasto clipping de matérias de imprensa coletadas desde a adolescência. Ele é autor de vários títulos que merecem destaque, dentre os quais vale citar Dolores Duran – A noite e as canções de uma mulher fascinante (publicado pela Editora Record, já está em sua terceira edição, sendo considerado pelo autor seu best seller); A bossa sexy e romântica de Claudette Soares (Ed. Imprensa Oficial/SP); Bastidores – Cauby Peixoto: 50 Anos da voz e do mito (Ed. Record, 2001);  Revista do Rádio – Cultura, fuxicos e moral nos Anos Dourados (Ed. Relume Dumará, 2002); História sexual da MPB – A evolução do amor e do sexo na canção brasileira (Ed. Record, 2006);

Suas pesquisas talvez possam ser definidas como um mosaico, ou ainda, um amplo resgate sonoro movido por paixão pela música popular brasileira. São mais de 500 discos, entre reedições e coletâneas, que foram produzidos desde muito cedo. Ele é hoje uma referência na cena artística brasileira. Mal finaliza um trabalho, e já está com outro prontinho para nos presentear. Recentemente, o artista dirigiu o irreverente Ney Matogrosso e a nova roqueira Marília Bessy no show Infernynho. Tal preciosidade poderá ser conferida em primeiríssima mão em CD e DVD a partir do mês de setembro.

Na data de 25 de julho, em que se comemora o dia do escritor, o blog euemeusamigosimortais entrevista Faour. Ele, que sempre desvenda para nós a história sexual da Musica Popular Brasileira, no Canal Brasil, todos os domingos, às 21h, nessa matéria revelará alguns “segredos sexuais” de Rodrigo Faour, além de se fazer conhecer um pouco mais em versos e prosas.  Com uma entrevista bombástica dessas, quem ganha é sempre você!

Blog:  Quando você começou a pesquisar e a escrever sobre o universo da música brasileira? É um exercício de otimismo?

Rodrigo Faour: Ainda pequeno me interessei sobre MPB desde que minha mãe me mostrou seus primeiros LPs e K7s. Já me apaixonei por Gal, Rita Lee, Beth Carvalho, Chico, Bethânia, Simone... desde cedo, aos 6, 7, 8 anos. Aos 13, comecei a colecionar matérias de jornal dos meus artistas favoritos. Daí me formei jornalista aos 21. Mas na escola e na faculdade já era tido como especialista, ainda que fosse apenas um grande interessado no assunto. O resto foi decorrência.

Seu livro, Dolores Duran – A noite e as canções de uma mulher fascinante, já está em sua terceira edição, sendo considerado por você seu best seller. Fale um pouco da concepção dessa literatura. Você acreditou que o livro teria tão longo alcance para chegar a uma terceira edição?

Jamais imaginei. Sabia que era uma personagem querida do público, pois seu nome é muito forte e tudo que levou sua assinatura nos últimos 50 anos obteve sucesso (peça musical, LPs, CDs, especiais de TV, shows-tributo etc), tanto que ao final da pesquisa descobri que ela é até hoje nossa compositora mulher mais regravada da MPB, mais até que Rita Lee. São cerca de 850 regravações de sua pequeníssima obra que soma apenas 35 canções, das quais apenas a metade é de fato conhecida, mas muito amada pelo público. Acontece que a história da personagem era quase que totalmente desconhecida das pessoas, e não imaginei que esta sua história em si suscitasse tamanha curiosidade. Mas, de fato, ela é sensacional e merecia ser contada.

Na época do lançamento do livro da Dolores, você produziu dois grandes shows com um total de 15 artistas, no eixo Rio X São Paulo. Como foi conciliar a vida de produtor musical com a de apresentador, jornalista...?

A música popular brasileira é a minha água, então apesar dos percalços eu não consigo fazer outra coisa. Mas, de fato, é um tour de force, pois para os projetos ousados que eu gosto de me lançar nem sempre é fácil obter patrocínio. Acabo tendo de investir o pouco do que ganho no meu próprio trabalho. Hoje o que faz sucesso na música brasileira é no geral popularesco ou então na base da imitação do que já foi feito, com certo grau de pretensão. Para se mostrar os verdadeiros bons artistas novos e os veteranos que ainda batem um bolão temos que rebolar muito.

Seu segundo livro, Revista do Rádio - Cultura, fuxicos e moral nos anos dourados, fala sobre músicas e comportamentos. Quais os comportamentos que você retrata e quem são as “vítimas” ali mencionadas?

A cultura de massa do século XX explode nessa fase áurea do rádio, em que as revistas de fofocas faziam algo muito semelhante ao que as Caras, Quem, etc, fazem hoje. Este mesmo interesse pela cultura das celebridades que existe hoje começa a explodir no Brasil dos anos 50. A diferença é que naquela época, de uma forma geral, as celebridades em si eram mais talentosas, e não havia tanto esse negócio da celebridade pela celebridade. O sujeito para ser famoso era preciso ser bom em alguma coisa. Hoje não, como bem retratou Woody Allen em seu filme “Para Roma, com amor”.

É mito ou verdade que a era do rádio foi considerada uma fase conflituosa para os artistas envolvidos com o veículo? Pegando o gancho desse livro, fale um pouco da relação dele com a biografia Bastidores: Cauby Peixoto, 50 anos da voz e do mito; e com o musical Cauby! Cauby!.

Conflituosa? Não havia nada de conflituoso. Artistas como Cauby Peixoto foram os verdadeiros pop stars de seu tempo, com direito a rasgação de roupa, filas em torno de seus carros, hotéis, apartamentos e saídas de programas de rádio, da TV (ainda em seu início, no Brasil) e shows em praças e cinemas. Cauby foi o primeiro ídolo criado com as artimanhas do marketing, boladas pelo seu espertíssimo empresário Di Veras que trouxe um know how americano para potencializar as qualidades que ele já sabia que Cauby tinha, ou seja, uma voz esplendorosa, um belo porte e um grande carisma. Só lhe faltavam um banho de loja e um empurrãozinho com notas apelativas na imprensa e um repertório popular. E foi isso que ele proporcionou, fazendo com que em seis meses seu pupilo se tornasse o maior cantor do Brasil. Este foi meu primeiro livro, realizado em 2001, que puxou um cordão de homenagens em torno dele, inclusive o musical, totalmente inspirado nele.

Seu trabalho pauta-se em música & comportamento. Essa dupla visão representa, em termos de comunicação, a possibilidade de integração da personalidade humana, formando um todo harmônico. Pode-se fazer essa leitura ao ouvir uma letra da música popular brasileira?

Lógico que sim. Não consigo conceber meu trabalho apenas festejando ou bajulando os artistas que eu gosto, por melhor que eles sejam. Inconscientemente, no princípio, eu já me interessava pelos que tinham algo de relevante a me dizer, por suas posturas – no palco ou fora dele –, pelo rigor com o repertório, pelas letras que cantavam ou pela originalidade em várias frentes (voz, comunicação com o público, como se mostravam no palco, nas capas de disco etc). Com o tempo, percebi que o que me atraía também era a relação dos mesmos com seu tempo, ou seja, como traduziam seu tempo e nos passava por meio de suas canções numa via de mão dupla: pegavam o que estava no ar e passavam pra gente, ou então, de modo transgressor, anteviam o que estava na vanguarda e já jogavam pra gente, que de alguma maneira, influenciava nossa visão de mundo, através de suas letras, danças e posturas artísticas. Em tudo que eu faço em termos de música, o enfoque sócio-comportamental e também o sexual me interessam muito porque a música brasileira é uma das marcas culturais mais fortes do brasileiro, portanto, tudo o que se passa em nossa sociedade está sublinhado na música. E todos nós vivemos sob as rédeas de nossas convenções culturais.

Como você define a onipresença do amor e do sexo nas letras das músicas brasileiras? Explique como isso ocorre e qual o compositor que conseguiu fazer essa junção na maioria das letras de suas músicas?

O povo brasileiro sempre teve um apelo sexual muito forte por conta até do clima tropical que existe em nosso país. Mas por causa da repressão religiosa e outros elementos culturais isto nem sempre pôde ser tão exposto como ele gostaria em nossas letras e danças. Em meu livro “História sexual da MPB” tudo está bem esmiuçado. Muitos autores e intérpretes conseguiram traduzir bem estes temas. De Domingos Caldas Barbosa a Noel Rosa. De Wando e Odair José a Rita Lee e Roberto. De Martinho da Vila a Genival Lacerda e MC Valesca Popozuda. De Marina Lima & Antonio Cícero e Frejat & Cazuza a Chico, Caetano, Gil, João Bosco & Aldir Blanc, Ivan Lins & Vitor Martins, Gonzaguinha, Fátima Guedes, Leci Brandão... De Bahiano (que gravava na Casa Edson, no início do século passado) a Menescal & Bôscoli, Tom & Vinicius, Roberto & Erasmo. Uma lista sem fim.

Como nasceu ou foi concebido o projeto televisivo do Canal Brasil, História sexual da MPB? O programa é a materialização do seu livro História sexual da MPB – A evolução do amor e do sexo na canção brasileira? 

Propus ao diretor do Canal Brasil, o meu querido Paulo Mendonça, que eu pudesse fazer um programa de TV ali. Ele topou, querendo justamente que eu bolasse algo em torno do meu livro. Daí eu quis fazer uma versão televisiva do mesmo em forma de minidocumentários sobre o essencial de cada um de seus capítulos. Como já havia dado certo no rádio – fiz por três anos o programa “Sexo MPB”, na MPB FM, triplicando a audiência da emissora, nas madrugadas –, senti que poderia dar pé também na TV. E deu. Já está na terceira temporada. As primeiras foram temáticas, agora cada programa enfoca a obra de um personagem desta história.

Movido por paixão, você se transformou em um colecionador singular de grandes nomes da MPB. Quanto à sua produção musical, consta uma pilha de discos entre reedições, trabalhos inéditos e compilações. Ao longo dos anos, como colecionador e produtor musical, foram quantos LP’s? São tantos que já perdeu as contas? Uma curiosidade: quem colaborou com o primeiro vinil da coleção?

Quem colaborou foi minha mãe, afinal, me apossei de sua pequena coleção de vinis e incorporei à minha. O resto foi fruto de uma grande paixão numa fase pré-internet em que realmente ter acesso a músicas do passado só comprando discos mesmo. E até hoje nada substitui você ter os objetos – vinil e CD – para entender a música além da música: ou seja, como ela foi vendida, como era a capa, quem tocava... tudo isto também é relevante para se entender o impacto da obra de um artista na sociedade pré-Internet. Não perdi a conta do que tenho, pois tudo que entra aqui vai logo sendo catalogado. Hoje tenho mais de 80 mil canções catalogadas no meu computador.

Li recentemente na Veja uma matéria assinada por Lya Luft e nela havia a seguinte frase: “Boas memórias não têm preço, porque nada custam ao nosso bolso, ninguém as pode roubar, e nada no mundo poderia pagar por elas”. O Brasil é classificado como país de memória fraca. Você acredita que, com seu trabalho de pesquisa, o registro detalhado em cada uma de suas obras poderá contribuir para manter viva a história da música popular brasileira? De que forma?

Faço a minha parte. A concorrência hoje com a superficialidade, com as bobagens de pseudocelebridades, com o lixo cultural é muito forte. Um pouquinho de lixo faz parte e nos ajuda a entender também o nosso tempo, mas APENAS isso é muito ruim. No caso da música, hoje somos privados de ouvir uma música um pouco menos popularesca em qualquer lugar que a gente vá, pois nas rádios só há lugar para dois ou três estilos musicais da moda impingida, e a TV não tem mais espaço para música (como já teve no passado) – principalmente estilos musicais que não estejam muito massificados. Então, me resta fazer meus livros, programas de rádio, TV, CDs, DVDs, palestras etc e tentar influenciar o maior número possível de pessoas dentro do espaço que me cabe. Meu consolo é que todo mundo que tem contato com algum dos meus trabalhos sempre fica freguês.

O pernambucano Dominguinhos recebeu, recentemente, justa homenagem da Universal Music em coletânea dupla intitulada Dominguinhos é de todos, com seleção de repertório promovida por Faour, além de uma breve biografia do músico, que você também assinou. Como foi presentear o público de Dominguinhos com essa preciosidade?

Na verdade, produzi esse CD duplo “Dominguinhos é de todos” (lançado em junho) a convite de Alice Soares, do marketing estratégico da Universal. Como ele estava enfrentando um sério problema de saúde, achamos que seria uma ótima oportunidade para as pessoas (re)descobrirem o grande compositor, intérprete e músico que ele sempre foi, entre o sofisticado e o popular. Muitas canções dele são famosas nas vozes de grandes cantores e não sabemos que são de sua autoria. Este CD duplo tenta corrigir esta injustiça.  Felizmente conseguimos homenageá-lo ainda em vida.

O que você leva do Rodrigo Faour para cada novo trabalho? 

Sou uma pessoa que busca se autoconhecer a cada dia, que busca melhorar o mundo, que detesta superficialidade, mas também odeia abordagens “intelectualóides” pretensiosas. Sou irreverente e penso que devemos olhar o mundo sempre com um pouco de pé atrás e sem se levar a sério demais, porém, sem mesmice, sem vulgaridade, sem ser raso. Este é meu temperamento e tudo que faço tem muito de mim. Não entro em nenhum trabalho sem paixão. O que eu levo do Rodrigo Faour a cada trabalho? Levo o meu tesão. E ele é bem grande! (risos)

Saiba mais sobre esse menino prodígio acessando: http://rodrigofaour.com.br/blog/ 

2 comentários:

Sítio Casarão disse...

Sua entrevista brinda com louvor o dia dos escritores.
Muito bom conhecer um pouco mais do irreverente e talentoso, Rodrigo Faour!

Parabéns!

Fábio Buaiz disse...

Bela entrevista!