quarta-feira, 6 de abril de 2011

Nosso Entrevistado, Marcílio Moraes!

Por Helena Vitória

O drama da existência humana, a provável influência das ideias pessimistas de vários escritores dos séculos passados, o desejo do homem de fugir da realidade, o mal-estar trazido pelo capitalismo, às vezes, é daí que artistas de diversas áreas e autores da contemporaneidade costumam buscar suas inspirações. Será?

O blog “Eu e meus amigos imortais ” abre aqui um espaço para bate papo e o faz no propósito de promover a aproximação e a troca de ideia. Assim, é possível conhecer melhor quem é de casa. Nosso entrevistado é o professor,escritor, jornalista, dramaturgo, crítico de teatro e roteirista Marcílio Moraes. Em sua trajetória no universo da irrealidade, escreveu inúmeros trabalhos ao lado de mestres como Dias Gomes, Euclydes Marinho, Leonor Basséres e muitos outros. Na galeria de suas assinaturas, destaque para: Roque Santeiro, Roda de Fogo, Mandala, Sonho Meu, As Noivas de Copacabana e Chiquinha Gonzaga, na TV Globo. Vale ainda lembrar de Essas Mulheres, Vidas Opostas, A Lei e o Crime e Ribeirão do Tempo, na Record.

Esse fluminense de Petrópolis começou escrevendo revistas de bangue-bangue para serem vendidas em bancas de revistas, lá pela década de 70. Talvez, nessa época, não imaginava a dimensão do longo alcance que seu trabalho teria. É um escritor muito conhecido no universo da ficção, que transita bem pela nossa realidade. A trajetória de suas obras parte da consciência, destacando-se a narrativa conflituosa entre familiares, instigando o drama existencial. Não sabemos se ele também inspirou-se em alguma das fragmentações humanas mencionadas na abertura dessa matéria para contextualizar seus inúmeros trabalhos. Na conversa com esse profissional, que é ousado em suas escritas, os “amigos imortais” exalta a dramaturgia brasileira, analisando os muitos gêneros que permeiam sua linguagem.

Blog - Escrever uma trama é sempre um desafio?
Marcílio Moraes
- Depende da proposta. Se você quer simplesmente repetir as fórmulas, nem chega a ser um desafio. Mas se quer tentar algo novo, aí é desafio mesmo, porque a telenovela é cruel com os erros de cálculo. O público vai embora.

Você tem preferência por escrever minissérie ou novelas?
Eu prefiro a minissérie, porque é um produto mais sofisticado em termos de dramaturgia. Também gosto das novelas, com a ressalva de que às vezes se estendem demais.

Qual a diferença entre os dois estilos?
Na minissérie, o autor tem a oportunidade de desenvolver uma dramaturgia mais apurada, porque, em geral, é uma obra fechada, ou seja, você escreve todos os capítulos antes da gravação. E também são poucos capítulos, permitindo ação mais condensada e eficaz. A novela exige uma dramaturgia diferente, por causa do tamanho, o que às vezes leva ao esgarçamento das tramas. A minissérie é um estilo de concisão, enquanto a novela é o reino da prolixidade.

Vocês autores se cobram e se sentem cobrados a fazerem coisas cada vez mais criativas?
Todo autor, creio eu, almeja sempre fazer obras originais, mais criativas que as antecessoras. Nem sempre consegue. É difícil acertar integralmente, em especial quando se tenta inovar. Daí, a tentação de repetir o que já deu certo outras vezes.

Em sua opinião, o que falta hoje na TV brasileira?
Em termos de dramaturgia, faltam tramas mais críticas. Há muita repetição e pouco apelo à inteligência dos espectadores.

E o que sobra?
Também em termos de dramaturgia, que é o terreno em discussão, sobra o rame-rame de sempre, a repetição de fórmulas, o deja-vú.

O Brasil é mesmo o país das telenovelas? Como explicar essa paixão do brasileiro?
Realmente somos o país das telenovelas. Alguns anos atrás, escrevi um artigo para o Estado de São Paulo chamado O país do folhetim: ttp://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=318ASP013 . Não creio que exista outro lugar em que todo o horário nobre da principal, quase monopolista rede de TV, seja ocupado por telenovelas. A TV Globo dominou a programação com este modelo. Hoje em dia é difícil escapar da chamada "programação horizontal". Concorrer com uma telenovela com outro tipo de programa é extremamente difícil, porque a novela está ali todo dia, durante meses, trabalhando com as técnicas folhetinescas sobre a curiosidade e também sobre a acomodação do público.

Você costuma viajar pela ficção como se fosse essa a realidade que a sociedade busca?
Não. Minha postura é sempre irônica e crítica. Gosto mais de tirar o chão do espectador do que oferecer um universo ficcional em que se sinta confortável.

Existe algum texto seu que, por um motivo ou outro, tenha sido engavetado? Existem alguns. Desde textos teatrais proibidos pela censura no passado a sinopses de novelas que não foram aceitas.

Ao acompanhar suas obras, percebe-se uma linguagem bem coloquial e irônica. A base disso está no cotidiano?
A novela tem que ter sempre uma linguagem próxima do coloquial. Quanto à ironia, acho que é minha marca registrada.

Do seu recente trabalho, “Ribeirão do Tempo”, qual foi o ponto de partida da pesquisa para a composição dos núcleos e dos personagens?
O ponto de partida? Difícil dizer. Não houve propriamente uma pesquisa. Eu quis construir uma cidade pequena, com tipos brasileiros, mais ou menos inspirados em pessoas que conheci ao longo da vida, mas sem nenhum compromisso de semelhança. E aí, a história, os núcleos e os personagens foram tomando vida. Inseri na trama os esportes radicais de que gosto e, brinquei com a cachaça porque sempre apreciei essa bebida.

Às vezes parece que é ficção e, de repente, vemos situações corriqueiras que nos cercam no dia a dia. É esta a proposta de Ribeirão do Tempo?
Não é a proposta. Como disse, não tive nenhuma preocupação com verossimilhança. Mas é bom quando acontece, ou seja, quando o espectador reconhece uma situação corriqueira naquilo que saiu unicamente da minha imaginação. O que não é de espantar, porque eu vivo no mesmo mundo do público.

O que você leva do Marcílio Moraes para os seus textos?
Acima de tudo, minha visão irônica da vida. Eu acredito que a vida não pode ser integralmente levada a sério. Pessoas que se levam muito a sério, frequentemente são perigosas. Por isso, meus personagens, a toda hora, se veem lembrados de que não são tão bacanas quanto se imaginam. Tiro humor disso.

Foto: Acervo do entrevistado

7 comentários:

JOANNES LEMOS disse...

Helena, a entrevista está maravilhosa. Aprendi muita coisa lendo as respostas do Marcílio, um dos grandes autores da teledramaturgia do nosso tempo.
Parabéns!

andreia nunes de disse...

Helena, Apesar de não ser uma grande conhecedora da teledramaturgia, tenho acompanhado Ribeirão e realmente esse autor é muito competente no que faz. Aproveito para te parabenizar por mais essa feliz matéria.
É isso aí, o Marcílio é 10!

s2 Cristina Ramos disse...

Helena Vitória...você sempre inovando em suas entrevistas!!! Adorei a clareza, objetividade e sutileza...
É sempre um grande prazer, ler e reler seus escritos...
Abraços fraternos e iluminados,

Cristina Ramos.

Madalena disse...

A entrevista em muito contribuiu para o meu conhecimento. Realmente o Marcilio é um grande dramaturgo, autor de obras maravilhosas. Quanto a vc, seu blog e seu talento, me faltam adjetivos para classifica-los. Parabéns por mais esta contribuição.

Myuriell disse...

Parabéns, minha amiga, por ter a oportunidade de entrevistar esse grande jornalista Marcílio Moraes. Quando uma estrela nasce para brilhar só basta uma oportunidade e essas estão surgindo a cada dia.

LUIZ ANTONIO CRUZ disse...

Infelizmente o Marcílio se perdeu no desenvolvimento de Ribeirão. As coisas ñ aconteceram e pra variar tudo se "fechará" no último capítulo. A maior frustração foi com o Querencio q tds esperavma uma gde transformação e ele afundou num fracasso. A falta de um protagonista tb causou ansiedade no público q está com um gostinho de quero mais q nunca chega. Outra falha é da RECORD q ñ passa a novela aos sábados, mta gente questiona. A química entre o Joca e a Rinaldi tb é questionada e a personagem Diana q tanto brilhou no início foi esquecida. Quem agradece por tantos furos é a Globo que anda preocupada com tanta empatia que este elenco arrematou. O Marcílio tinha a faca e o queijo, mas deixou escapar a virada histórica q logo, logo acontecerá...

Helena disse...
Este comentário foi removido pelo autor.